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Existe uma tira de jornal britânica de espionagem que rodou por quase quatro décadas, virou referência do gênero e, ainda assim, é praticamente desconhecida nos Estados Unidos. Modesty Blaise, criada pelo falecido Peter O’Donnell, estreou nos jornais em maio de 1963 e seguiu em publicação até fevereiro de 2001. Fora dos EUA, mantém público dedicado até hoje, mais de 25 anos depois do fim. Por lá, a circulação foi intermitente — e a explicação mais comum é o excesso de cenas de nudez, consideradas picantes demais para o público americano. O Detroit Free Press foi a exceção por anos, e mesmo assim censurou algumas tiras.

Quem conhecia a personagem nos EUA geralmente chegava por outro caminho: a série de romances escrita pelo próprio O’Donnell ou uma das duas adaptações para o cinema. O filme de 1966, estrelado por Monica Vitti e Terence Stamp, foi um fracasso de bilheteria com pegada camp, mas cultuado até hoje — o que levou Quentin Tarantino a produzir executivamente My Name is Modesty, em 2004, obra que só carrega o nome da franquia.

Na trama, Modesty é uma refugiada órfã do Oriente Médio no pós-Segunda Guerra, sem saber quem são os pais ou qual é sua nacionalidade. Ela chega a Tânger, assume o controle de uma gangue local e transforma o grupo na Network, uma organização internacional de criminosos com código próprio. Sob o comando dela, a Network não hesitava em cometer grandes roubos ou espionagem corporativa, mas costumava esmagar traficantes de drogas e de pessoas que atuavam em seu território.
O visual da tira ficou marcado por dois nomes. Jim Holdaway, artista original, morreu repentinamente em 1970. Boa parte do restante da série foi ilustrada pelo espanhol Enrique Badia Romero (Axa, Judge Dredd). Outros nomes passaram pelo traço, como John Burns (2000 AD, Heavy Metal), o cartunista de jornal Neville Colvin e, em uma passagem e meia de 1979, Pat Wright, da Private Eye. Holdaway e Romero tinham um dom para contar histórias de forma econômica: faziam em três quadros o que muitos desenhistas posteriores não conseguem em uma página inteira. O resultado são cenas de ação elaboradas dentro dos limites de uma tira preto e branco comum.

Nem tudo envelheceu bem. Parte do charme atual está justamente nos gadgets que já foram high-tech, como o toca-fitas portátil usado em The Bluebeard Affair (1972) para enganar dois atiradores, ou o destaque dado a rádio amador, videocassete, spray de pimenta e lança térmica. Em outros momentos, a tira é produto de sua época. Costumava estar à frente em questões raciais, com Modesty e Willie enfrentando preconceituosos em defesa de grupos marginalizados, mas o uso de linguagem desatualizada já gerou controvérsia. Em 2020, o racismo de um vilão contra aborígenes australianos em The Stone Age Caper (1971) fez reprints da série serem retirados de um jornal na Austrália.

Para quem quiser conferir, a série completa está reunida em 27 volumes de bolso da Titan Books, lançados entre 2004 e 2017, com comentários de O’Donnell e bastidores da tira. Segundo a Polygon, todos os volumes seguiam em catálogo na data de publicação do texto original, embora seja preciso garimpar para achar todos.
Visão Gamer: Modesty Blaise não é um jogo, mas é material de referência para quem curte narrativas de espionagem, crime e ação em formato serializado. A estrutura enxuta das tiras, com ação densa em poucos quadros, é um bom estudo de ritmo e composição — algo que vale tanto para fãs de quadrinhos quanto para quem se interessa por direção de cenas em games de ação.
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/modesty-blaise-retrospective/.
Fonte: Polygon.
2026-10-18 22:00:00
RenatoAlmeida.
2026-10-19 02:49:00

































































































