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A maioria dos filmes de viagem no tempo ignora as regras da física quântica e usa só os conceitos que ajudam a história a funcionar. Quando você aplica a ciência real, quase tudo desmorona. Mas alguns títulos foram além: ou pesquisaram as leis da física a fundo, ou partiram delas para construir o roteiro. Separamos cinco exemplos que se destacam nesse quesito.
Interstellar (2014)
A ficção científica dirigida por Christopher Nolan é provavelmente o filme mais conhecido a explorar as leis da física quântica com o máximo de rigor possível. O conceito foi desenvolvido pelo físico teórico Kip Thorne, que também atuou como consultor científico. O longa aborda buracos negros e dilatação temporal, e mostra a viagem no tempo em seu ato final. O astronauta Cooper (Matthew McConaughey) entra em um buraco negro e chega a um tesseract, um dispositivo construído por humanos do futuro que representa o tempo como espaço físico, permitindo que ele se comunique com a filha no passado. O tesseract é justificado pela existência desses humanos futuros, mas o recurso serve para explorar como a viagem no tempo poderia surgir, aproveitando o fato de que buracos negros ainda são um grande mistério.

Planet of the Apes
Tecnicamente, qualquer obra em que alguém viaja para o futuro e não volta tem uma vantagem científica. Isso porque a viagem para o futuro é totalmente possível: basta viajar muito rápido, perto da velocidade da luz.
Avengers: Endgame

Pode parecer estranho incluir um filme em que a viagem no tempo é explicada por um monstro verde e radioativo e um dos viajantes é um guaxinim falante, mas Endgame merece crédito por abandonar o tropo mais falho dessas histórias. Em geral, o objetivo é voltar ao passado para consertar o futuro reescrevendo os eventos. Endgame não faz isso. Os Vingadores voltam no tempo para roubar itens do passado e retornam ao presente para usá-los. Enquanto Homem-Formiga (Paul Rudd) acha que isso vai alterar a história, Hulk (Mark Ruffalo) explica que não é possível: o tempo se ramificaria, criando novas linhas temporais onde os objetos somem. O físico britânico David Deutsch propôs que qualquer viagem que altere o passado não muda a linha original, mas cria uma nova. Isso usa a Interpretação de Muitos Mundos, que Endgame também adota e é uma leitura reconhecida da mecânica quântica. O filme dá uma boa mãozada na criação do GPS Espaço-Temporal de Tony Stark (Robert Downey Jr.), mas o fato de a viagem ser acessada pelo reino quântico — onde, na vida real, o tempo funciona de forma bem diferente e pode nem existir — soa como um aceno a isso.
Primer (2004)
Enquanto Endgame pode ser curtido por quem não presta atenção nos detalhes da viagem no tempo, o filme de baixo orçamento Primer exige atenção total o tempo inteiro. Escrito e dirigido por Shane Carruth, que também estrela como um dos dois protagonistas, o longa é frequentemente considerado o filme de viagem no tempo mais cientificamente pensado já feito. Carruth tem graduação em matemática e trabalhou como engenheiro de software, e usou esse conhecimento para contar a história de dois engenheiros que fazem experimentos numa garagem. Durante um experimento envolvendo gravidade, eles descobrem acidentalmente um meio de viajar para o passado e constroem uma caixa grande o suficiente para os dois entrarem. Ao longo do filme, usam a caixa sem pudor: olham o mercado de ações para ver quais papéis vão bem e voltam ao passado para comprá-los antes da alta. Também acabam criando duplicatas de si mesmos, mentindo um para o outro e quebrando todas as regras que os filmes de viagem no tempo alertam.

O longa tem parâmetros bem rígidos. Ninguém pode viajar para antes da criação da caixa. E se você quer voltar uma hora, precisa ligar a caixa, esperar uma hora, entrar nela, esperar mais uma hora e então sair. Isso leva você de volta ao momento em que a caixa foi ligada. Por exemplo: ligou a caixa às 13h, entrou nela às 14h, espera mais uma hora e emerge às 13h. Enquanto o tempo corre para trás para quem está dentro, não existe portal: a pessoa precisa vivenciar aquele período, mesmo que seja ao contrário. Carruth baseou essa versão da viagem no tempo num diagrama de Feynman, que descreve como partículas subatômicas se movem para frente e para trás no tempo simultaneamente. Ele também usou linguagem científica propositalmente complexa para retratar de forma realista como os dois engenheiros conversariam. O resultado é um filme que nunca se atrapalha nem quebra as próprias regras, mas que vem sendo interpretado e dissecado em diagramas há mais de 20 anos.
Predestination (2014)
Em 1978, o astrônomo Carl Sagan escreveu um artigo para o The New York Times sobre a natureza das histórias de ficção científica, explicando como elas podem ajudar o público a vislumbrar verdades reais do universo ao ficcionalizar princípios e teorias científicas. Entre as histórias que ele elogiou estava —All You Zombies—, conto de 1959 de Robert A. Heinlein. A história é sobre um homem intersexo, com órgãos reprodutivos masculinos e femininos. Com o uso da viagem no tempo, ele volta e engravida sua versão mais jovem e feminina. A criança que nasce é uma menina que é levada de volta no tempo. Essa criança se revela a mesma mulher que deu à luz a ela e o mesmo homem que engravidou essa mulher. A história também deixa claro que não existe uma linha temporal original onde o bebê seja produto de outra pessoa que não as duas versões mais velhas de si mesmo. A vida deles é apenas esse loop inalterável. O conto é basicamente uma explicação e exploração minuciosa de um loop causal, essencialmente o paradoxo que viajantes como Doc Brown alertam nos filmes. Se alguém volta no tempo para consertar algo e consegue, deixa de ter motivo para voltar. Assim, o problema reaparece, forçando a pessoa a voltar de novo, e assim por diante
Leia mais aqui em inglês: https://www.polygon.com/time-travel-movies-that-make-sense/.
Fonte: Polygon.
2026-09-19 02:15:00
RenatoAlmeida.
2026-09-19 05:37:00











































































































